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  • Categoria: Jornalistas
  • Escrito por João Wainer
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Futuro do jornalismo em vídeo tem potencial para transformar a fotografia

Formato deve se consolidar, e sua tecnologia será capaz de mudar a dinâmica do fotojornalismo nas redações

Como pai de duas adolescentes, fiz delas meu objeto de estudo sobre o comportamento das novas gerações e cheguei a algumas conclusões que, apesar de não terem nenhuma base científica, foram muito importantes e mudaram a forma como enxergo o futuro do jornalismo em vídeo.

A primeira é que existe uma transformação darwiniana profunda em curso. Usando conceitos da informática, percebo que o cérebro dos mais jovens vem de fábrica com menos HD, aquele tipo de memória onde se acumulam informações, mas com muito mais memória RAM, aquela responsável pelo processamento dessas informações.

A segunda é que, graças a essa “evolução”, o vídeo é a ferramenta que, daqui para frente, todos os habitantes que nascerem neste planeta vão utilizar para se comunicar, para estudar, para se informar e para se divertir. Mesmo sem um instituto de pesquisa por trás, isso já havia sido notado há alguns anos lá em casa.

A partir dessa constatação, vejo que, para quem está querendo sobreviver à maior crise de sua história, as empresas jornalísticas estão bastante equivocadas e ainda engatinham na produção de vídeos compatíveis com o que as pessoas esperam hoje em dia.

Enquanto as TVs seguem usando majoritariamente o mesmo formato de jornalismo tradicional desde que o primeiro telejornal foi transmitido — com o apresentador na bancada lendo as notícias em um teleprompter, repórteres segurando um microfone enorme com o logo da emissora, passagem com voz cheia de pompa e algumas imagens “meia boca” de cobertura — , os veículos de texto na internet, muitas vezes, imitam esse formato sem perceber que fazer vídeo para internet é muito diferente de fazer vídeo para televisão. Postar a matéria do telejornal no portal da emissora definitivamente não é fazer vídeo para web.

Iniciativas interessantes surgiram nos últimos anos, como a TV Folha, que coordenei entre 2011 e 2014, a Vice e outros veículos que usam o formato do documentário em suas produções. Mas com os cortes de gastos nas redações, essas iniciativas foram sendo sucateadas e hoje quase inexistem, o que considero um grande erro das empresas.

Considerando que o vídeo cresce enquanto o papel mingua a cada ano, é para aquele formato que os poucos investimentos que sobraram das empresas deveriam ser direcionados. É uma questão de sobrevivência.

Outra mudança significativa que enxergo nos próximos anos é o fim da fotografia jornalística nos moldes atuais. Com o avanço da tecnologia, as câmeras de vídeo estão produzindo frames cada vez maiores e com mais definição. Isso significa que a partir do 4K poderemos extrair frames do vídeo e publicá-los tanto no papel quanto na internet em alta resolução sem ficar devendo nada para as atuais câmeras de fotografia.

 

Com isso, mandar um profissional com uma câmera fotográfica para uma pauta para que ele faça uma única foto se transforma em uma prática ultrapassada, já que ele poderá gravar em vídeo aquela cena e escolher entre milhares de frames a melhor fotografia. É o fim do “momento decisivo” de Henri Cartier-Bresson, mas engana-se quem confundir isso com o fim da fotografia.

O que muda é a forma de produção, mas para o leitor isso é indiferente. O fotógrafo vai ter que estar no local da mesma maneira, vai ter que escolher o assunto, checar a luz, enquadrar, fazer a composição e, em vez de ficar esperando como um caçador a hora exata de apertar o botão, ele vai gravar a cena toda em vídeo e depois extrair a melhor fotografia para publicação.

Com isso, em vez de apenas uma fotografia, o mesmo profissional vai voltar para a redação com foto e vídeo. Isso vai trazer de volta uma figura que perdeu a importância quando chegaram as câmeras digitais mas que deve voltar com força total nesse novo momento: o editor de fotografia.

Nos tempos da fotografia em filme, o fotógrafo chegava na redação com 10, 15 filmes de 36 poses expostos e era muito difícil, entre tantas imagens, encontrar a melhor foto. Nessa hora, os grandes editores de fotografia brilhavam, achando coisas nas folhas de contato que nem o fotógrafo havia percebido.

Quando chegaram as câmeras digitais, os próprios fotógrafos passaram a fazer uma pré edição e enviar uma quantidade bem menor de fotos. Com isso, a figura do editor de fotografia foi perdendo força nas redações e muitas extinguiram o cargo.

Agora, com as novas câmeras invadindo o mercado, o editor de fotografia volta a ter papel importantíssimo na redação, pois com os aparelhos fazendo 24 frames por segundo haverá milhares de opções para as fotos do impresso e para as galerias do online. Com essa dinâmica, o olhar especializado novamente pode fazer a diferença.

 

Enquanto isso, o mundo ainda procura a linguagem que vai substituir de vez a do telejornalismo convencional. Tudo indica que é no documentário que estão as ferramentas a serem importadas para o dia a dia da redação. Referências do cinema, fotografia mais sofisticada, montagem mais criativa e solta são elementos que devem ser incorporados na produção de vídeos jornalísticos para a internet. Do outro lado da câmera, estarão jornalistas mais relaxados, com menos pompa e linguajar mais natural, capazes de gerar maior empatia com quem assiste.

É fato que ainda não encontraram uma forma de fazer esses vídeos online se tornarem lucrativos, mas assim como aconteceu com a música, cedo ou tarde, esse modelo vai surgir e quem estiver preparado e já afiado na nova linguagem vai largar na frente. Infelizmente Steve Jobs, fundador da Apple, morreu em 2011. Com ele vivo talvez esse hiato fosse um pouco mais curto.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2017. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.

 

 

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