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  • Categoria: Movimento
  • Escrito por Fábio Sanchez
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O jornalismo das ruas, das periferias e da reportagem, em contraste com os silêncios da grande mídia

Em debate promovido pelo Movimento Jornalistas Pró-Conselho, colegas dos Jornalistas Livres, da Revista Vaidapé e do Brio apontam as falhas da grande mídia na cobertura dos movimentos sociais e falam da nova relação que estabelecem com seus públicos

 

A mídia tradicional perdeu o protagonismo e a credibilidade em sua cobertura dos movimentos sociais e de temas que fujam de uma pauta limitada, e quem está preenchendo as lacunas são os novos arranjos de jornalismo, mais conectados com esses movimentos e com outras camadas do público, ágeis o suficiente para fazer chegar a informação quase em tempo real e com mais credibilidade, porque estão noticiando de um ponto de vista bem próximo das fontes de informação.

Essas foram algumas das questões discutidas no seminário "Novas Experiências em Jornalismo", acontecido em 31 de outubro no auditório Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Estiveram debatendo Laura Capriglione, do Jornalistas Livres, Iuri Salles, do coletivo Vaidapé e Breno Costa, do Brio, que participou à distância. A coordenação foi da professora Caru Schwingel, da ESPM/SP, pesquisadora do jornalismo no ambiente digital.

Capriglione abriu o seminário descrevendo a experiência dos Jornalistas Livres, um coletivo que se estrutura como produtor de conteúdos especializado em movimentos sociais e também como um hub divulgador de demandas populares que não encontram espaço nos grandes veículos de comunicação. "A imprensa tradicional parou de fazer uma representação minimamente confiável dos movimentos sociais", afirmou.

Ela cita como exemplo a lógica comercial ou elitista dos jornais na cobertura da greve dos docentes paulistas, ou das televisões nos movimentos de rua de 2013. "Os jornais não cobrem nada que saia de um quadrilátero de quatro quilômetros entre os bairros de Higienópolis, Sumaré e Bela Vista". Quando cobre grandes movimentações, como na grande operação de cobertura feita pelas TVs para prestigiar as passeatas de março deste ano contra o governo federal, fazem "uma cobertura de cima, de helicóptero, procurando passar grandiosidade. Não foram para a rua ao lado dos manifestantes. Nós fomos". E o que descobriram foi surpreendente, segundo ela.

"O que vimos foi arrepiante. Enquanto as TVs passavam uma imagem de movimento grandioso, democrático, resgatando a memória das manifestações pelas ‘diretas já’ e pelo ‘fora Collor’, o que vimos foi muito diferente. Como não tínhamos helicópteros, fomos a pé para a avenida Paulista e ali foi fácil ver as falhas na narrativa heróica e épica. Eram xingamentos de caráter misógino, torturadores sendo celebrados como heróis da pátria, o exato oposto do que se viu nas ‘diretas já’. A transmissão dessas imagens captadas ali ofereceu narrativas alternativas e bem diferentes para uma compreensão mais próxima do real sentimento dos manifestantes”.

Narrativas alternativas

O público leitor respondeu com grande audiência. "Em um final de semana, nossa página no Facebook que tinha menos de 500 seguidores, chegou a três milhões de pessoas alcançadas", disse Laura Capriglione.

Breno Costa, do Brio, uma plataforma especializada em grandes reportagens e na integração de profissionais de jornalismo em uma rede de produção, afirmou que seu trabalho também contraria não só a rapidez do jornalismo diário como os textos curtos geralmente vistos na internet. Foca temas incomuns na pauta cotidiana, mas de grande apelo humano, como a do marido que praticou eutanásia com a esposa, publicado recentemente na grande imprensa.

O Brio também propõe diferenciar-se ao abrir sua pauta para sugestões de profissionais de todo o país, selecionando apenas textos que tenham conteúdo relevante não do ponto de vista dos sites de notícias, mas com critérios mais próximos de clássicos da reportagem, como as matérias da revista Realidade, que circulou nos anos 1960 e 70.

Iuri Salles, da Revista Vaidapé, descreveu seu projeto focado nos acontecimentos da periferia quase ignorada pela grande mídia, com o diferencial de ceder um espaço generoso para a fonte da informação. “Nossa ideia é representar os que não são representados na mídia tradicional, deixar os caras falarem, o funkeiro, o pedreiro”. O projeto vem crescendo e já conta com uma rádio, o site, revista e canal em várias redes sociais.

O foco em um público-alvo geralmente ignorado pela mídia leva a descobertas interessantes desses coletivos. “Os governos e os jornais parecem ignorar que estar numa escola pública hoje, com Enem, Prouni e quotas, é completamente diferente da escola pública de alguns anos atrás, quando não havia janela de oportunidade nenhuma. O paradigma de escola pública, tanto do governo estadual quanto da mídia, ainda está no passado”.

O público-alvo

Aumentar a audiência é prioridade dos grupos representados pelos palestrantes. “Nós somos obcecados pela questão da audiência, tomamos o pulso disso todos os dias”, diz Laura Capriglione. O Jornalistas Livres acredita que funcionar como hub, trazendo para suas páginas movimentos distintos, é uma estratégia eficiente para atingir um público cada vez maior.

Ficou claro no debate que há diferentes públicos para os grupos. Enquanto Breno Costa descreveu um público-alvo para o Brio de classe média com acesso a tecnologia diversa e 4G que busque informações alternativas à imprensa que já consome, Iuri Salles da Vaidapé diz que “acho complicado direcionar o conteúdo para um cara branco, de classe média e acesso a alta tecnologia. Há um enorme mercado fora disso que precisa ser representado”.